sábado, maio 05, 2007

surgimos da escuridão


Surgimos da escuridão, surgimos do mar, na onda que se quebra na areia ao nascer do dia. Quando a noite se retirou, ali estávamos na terra a que chamaríamos de lar.

Surgimos da escuridão, surgimos da noite, a primeira de muitas manhãs neste novo lugar. Quando o sol rompeu a neblina, erguemo-nos como uma grande onda sobre a terra. Éramos agora o povo deste lugar.

O que arde por entre a chuva e a névoa? O que expulsa a escuridão? O que torna a montanha agreste?

Deus é o nosso Senhor e o nosso Pai. Rosto incandescente à porta do dia; conforto do lar, do gado e da colheita; Senhor da manhã, e do dia.

De coração erguido, cantamos o louvor, dançamos nos seus raios milagrosos.

*

Cristo morreu, o grande Senhor morreu mas Ressuscitou. Ele é como um escudo de bronze, uma parede de pedra. É como uma lança de luz, um guardião no alto, um rochedo no rio. É como o sol da manhã. É como um incêndio à noite. É uma história poderosa. É como um clarão na floresta, como uma tempestade repentina. Ele próprio é a VIDA ETERNA.

Raios e trovões fustigam as rochas. Assobiam os ventos e abatem-se tempestades sobre a floresta, espalhando manadas como grãos. O fogo salta do negro para o negro. Ao seu encontro, o medo e a raiva. Mas nós não sucumbiremos, nós não seremos lançados como grãos.

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Eu Sou Jesus, perdido e desesperado. Eu Sou o Universo e o Universo Sou Eu. Forte e firme passeava pelo mundo. Mas a coroa e a cruz destruíram o meu conforto. Rasgado e magoado, ando de ramo em ramo. Os espinhos flagelam-me. Nem de dia nem de noite tenho paz.

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Nenhuma vida dura para sempre aqui na nossa terra. Aqui cultivamos e lutamos, aqui amamos e morremos. Onda após onda, o mar da vida fustiga cada encosta.

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Vimos o fumo da guerra ergue-se dos campos de trigo. Uma mancha sobre o sol. Secam as sementeiras, ossos de fome passeiam-se por caminhos apagados pela negra chuva da ruína.

Gerações completas erguem-se para partir. A terra enganou-nos. Negros soldados surgem contra nós. Com danças e cânticos, choramos nossos filhos.

Transportam-nos sobre os oceanos, dançando e cantando. Madrugada... partem os navios.

A dor de um amante ergue-se com a maré. E rasgam-se corações demasiados jovens para sofrer. O mar cruel é fundo, negro e vasto.

Surgimos da noite, surgimos do mar. Numa nova praia brilham as luzes da madrugada. Sem pai nem mãe, arrancados de nossos lares, trazemos lágrimas a esta terra... que faremos nossa.

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Fortes e firmes, como me ensinou minha mãe. Assim dançamos. Fortes e firmes, como me ensinou meu pai. Assim cantamos.

Calcando as estradas da cidade. Em charcos de luz pelas esquinas,... o orgulhoso e alegre Carnaval dos pobres.

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Sobre os telhados a musica chama. Ar conhecido mas não o nosso. Parece algo retirado de um livro de histórias. Alguém dançando, a nossa memória da neve...

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Apesar de tudo, a lua sobre a cidade e sobre a floresta é a mesma em toda a parte. Na terra antiga, a lua pinta de prateado os campos de trigo como aqui.

Todos os rios vão dar ao mar. Toda a terra vai buscar vida ao rio. Amanhã o sol surgirá sobre planícies douradas.

O meu coração ficará curado. Aqui, numa nova margem, ergo a cabeça.

Um novo passo trilhado na memória dos passos dados. Tudo é uma viagem. De uma a outra terra, de uma vida para outra vida, recriamo-nos sob o mesmo sol e a mesma lua.

Uma geração depois, o filho do emigrante encontra-se pela primeira vez na velha terra, familiar e tão estranha. A graça tece o seu cantar sobre a montanha. Memória, rica em cantares... Coração

1 Comment:

Anónimo said...

Que feliz que fico ao ver mais pessoas a escrever neste blog nosso.
Fernando esse desenho foste tu que fizes-te, não foste?
é que ao olhar para ele estou a lembrar da descrição que me fizes-te dele, um dia, já algum tempo...